Não se
pode negar que eu era um rapaz levado, que causava muitos aborrecimentos à mãe.
Meu pai, que era pianista, naquele tempo pouco se podia dedicar à educação dos
filhos. Eu tinha um prazer especial em brincar com fogo. Quando encontrava uma
caixa de fósforos esquecida, logo acendia um pauzinho. Com alegria, contemplava
a pequena chama e em seguida lançava fora o fósforo, sem cuidar se ele ainda
ardia. Isto eu fiz durante muito tempo, até que uma vez minha mãe chegou a
observar e deu um fim repentino ao meu divertimento.
- Espero
que você nunca mais pegue numa caixa de fósforos sem licença, disse ela, e
ameaçou-me com um severo castigo.
Prometi, todo amor e bondade, e pretendia
também cumprir a promessa.
Certa
manhã, porém, minha mãe teve de ir à feira. Deixou a nós dois, a mim,
Joãozinho, e a irmãzinha que era dois anos mais nova, aos cuidados da empregada
recém-chegada ao serviço.
-
Joãozinho – ela aconselhou, ainda, ao partir – lembre-se de que Deus pode vê-lo
também, quando eu não estou aqui.
Eu prometi
ser bonzinho. Mas logo que me senti livre dos olhos vigilantes de mamãe, a
velha insolência tomou conta de mim, porque, com a empregada tão nova e quieta,
eu não me importava. Nós começamos a correr por todos os compartimentos da
casa, eu na frente, e minha irmãzinha, que ainda estava um pouco fraca, atrás
de mim.
Em nossa
correria doida chegamos ao quarto de nossos pais. Ali, sobre a estufa, uma
caixa de fósforos me tentava. Logo tive o desejo de acender um pauzinho. Ao
mesmo tempo veio-me à lembrança a severa proibição de mamãe. Eu procurava
desviar-me dali. Mas a caixa com a linda etiqueta vermelha parecia estar em todos
os cantos do quarto e tentava-me irresistivelmente. Apenas vou ver se há
fósforos dentro, eu pensei.
Uma
cadeira foi carregada para perto da estufa, pois eu era muito pequeno para
alcançar a caixa. Subi na cadeira, enquanto minha irmã olhava admirada. Logo
peguei a caixa almejada, com muito gosto. Estava bem cheia de fósforos de
cabecinha vermelha. Será que eles também queimavam? Somente um, apenas um, eu
queria experimentar. Que bela chama! Era tão linda! Mais uma vez, mais outra.
De um fósforo aceso, tornaram-se dois, três, quatro!
- Eu
também, eu também, Joãozinho, pedia à pequena que achava bonitos os fósforos
inflamados.
Dei um
fósforo à irmãzinha; depois lhe estendi a caixa para riscar, sem pensar que
estava ensinando a desobediência a ela. Minha irmãzinha não sabia bem
riscá-los.
- Dá-me,
aqui, tolinha – disse eu, sentindo-me muito superior a ela, e tomei-lhe os
fósforos da mão, dando a caixa em troca.
Enquanto
eu me esforçava a dar, à criança assustada, o pauzinho aceso, não notei que o
meu próprio fósforo chegava debaixo da manga de seu vestidinho vermelho, de lã.
Eu ainda não sabia o que acontecera, até que vi a fumaça subir e o fogo
aparecer.
Atônito, eu estava ali, olhando como minha
irmã corria de um lado ao outro, gritando, e com os braços erguidos. Pelo
movimento a chama ficava maior e maior. A pequena gritava quanto podia, de
susto e de dor. A empregada veio correndo. Em vez de ajudar, ela ficou parada
em nossa frente, sem saber o que fazer. Pôs o avental na frente dos olhos e
começou a soluçar.
Neste
momento crítico, mamãe apareceu na porta. Na frente da casa ela já tinha
ouvido os nossos gritos e, pressentindo
o perigo, subiu as escadas quase voando. Pálida, muito pálida mesmo, ela olhava
ao redor de si. Mas, num segundo, e ela já sabia qual a situação. Lançou a
sacola de verduras a um lado e enrolou a criança chamejante em sua larga saia.
Foi num abrir e fechar de olhos. Mamãe apertou a criança contra seu corpo e
deste modo conseguiu apagar o fogo.
A irmãzinha
estava salva da morte. Mas em que estado ela se achava, eu depois iria saber.
Enquanto a mãe cuidava da criança, eu saí, devagarzinho. Na sala de música
estava o grande piano de cauda de papai. Em baixo deste eu me escondi, como
fazia sempre que alguém estivesse zangado comigo. No cantinho mais escuro
fiquei para esperar a tormenta passar.
Depois de
algum tempo ouvi os passos de mamãe e logo sua voz chamando: - Joãozinho, onde
você está?
Agora não
adiantava mais me esconder. Eu tinha de sair e sabia que seria castigado.
Olhava com medo para o grande espelho atrás do qual era guardada a vara. Oh, se
mamãe a tivesse tirado e dado o castigo merecido! Até as piores varadas eu
teria esquecido logo. Mas o que aconteceu então nunca mais esquecerei.
Venha
comigo – disse mamãe com uma voz triste, e levou-me ao lado da caminha da
irmã.
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